Opinião: Há derrotas eleitorais que encerram carreiras. Outras apenas antecipam o futuro.
A derrota de Renan Santos nas urnas pode ter sido eleitoral, mas está longe de representar uma derrota de suas ideias. Arrisco dizer abertamente: Renan era o melhor candidato desta eleição e, talvez justamente por isso, estivesse à frente do seu tempo.

O Brasil já viu esse filme antes. Enéas Carneiro foi tratado durante anos como personagem folclórico, reduzido a bordões e caricaturas. Décadas depois, muitos passaram a revisitar seus discursos e reconhecer que, por trás da forma peculiar, havia diagnósticos e propostas que mereciam ter sido debatidos com muito mais seriedade. Talvez estejamos repetindo o mesmo erro.
Renan apresentou ao país propostas que deveriam, no mínimo, ter provocado uma discussão nacional. Poderíamos concordar ou discordar delas — isso faz parte da democracia. O problema é que uma parcela enorme da sociedade preferiu nem ouvi-las.
E há um ponto que torna isso ainda mais incômodo: em uma eleição na qual integridade e corrupção estiveram tantas vezes no centro do debate, Renan chegou à disputa sem carregar os escândalos de corrupção que costumam acompanhar tantos nomes da política brasileira. Ainda assim, milhões de brasileiros voltaram a escolher suas trincheiras conhecidas.
Talvez o tempo seja mais justo com Renan Santos do que as urnas foram agora.
E sua postura no segundo turno ajuda a reforçar essa imagem. Ao não declarar apoio a nenhum dos dois candidatos restantes, Renan demonstra coerência com tudo aquilo que afirmou durante a campanha. Seria muito fácil negociar apoio, escolher um lado, buscar espaço e transformar os votos recebidos em moeda política. Não fazê-lo é também uma declaração.
Ele não é dono dos votos de quem confiou nele.
Cada eleitor deve decidir sozinho o que fazer no segundo turno.
Renan perdeu uma eleição. Isso é fato. Mas seria precipitado concluir que suas ideias também perderam. Enéas precisou de anos para que parte do país voltasse aos seus discursos e perguntasse: “E se tivéssemos ouvido melhor?” Talvez, daqui a alguns anos, façamos a mesma pergunta sobre Renan Santos.
O Brasil teve a oportunidade de ouvi-lo agora.
Preferiu não ouvir.




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