Lula pode vencer. Mas a esquerda não governará

Lula ainda pode vencer a eleição presidencial. Mas existe uma realidade que o segundo turno já não poderá modificar: a esquerda saiu das urnas profundamente minoritária no Congresso que tomará posse em 2027. E isso muda tudo.
A nova Câmara terá 303 deputados identificados com a direita, 124 com a esquerda e 86 com o centro. O PL, sozinho, terá 121 cadeiras e comandará a maior bancada da Casa.
Mas olhar apenas para o PL esconde o verdadeiro tamanho do problema que um eventual governo Lula enfrentará. União Brasil e PP, que juntos elegeram 87 deputados, já anunciaram apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. O Republicanos terá outros 41 parlamentares e negocia sua posição. O PSD terá 43; embora tenha adotado neutralidade nacional, seu candidato no primeiro turno, Ronaldo Caiado, declarou apoio a Flávio.
É nesse Congresso — e não naquele eleito quatro anos atrás — que um eventual novo governo Lula terá de governar.
Somados, PL, União-PP, Republicanos e PSD possuem 292 deputados. Isso não significa que os 292 votarão juntos. Partidos não funcionam como exércitos, e algumas dessas legendas possuem alas próximas ao próprio governo.
Mas os números revelam o tamanho da mudança política ocorrida no país.
Para derrubar um veto presidencial são necessários 257 votos na Câmara e 41 no Senado. Portanto, uma articulação entre essas forças poderia, em determinadas votações, superar essa barreira sem precisar de um único voto da esquerda.
E existe um número ainda mais simbólico.
São necessários 342 deputados para a Câmara autorizar a abertura de processo contra o presidente da República. Considerando os 303 deputados classificados como de direita na próxima legislatura, esse campo estaria a 39 votos desse patamar.
Isso não significa que haverá impeachment. Muito menos que 303 deputados votarão automaticamente da mesma maneira.
Significa algo politicamente mais relevante: um eventual governo Lula começaria seu mandato sabendo que sua sobrevivência legislativa dependeria diariamente de partidos que não pertencem ao seu campo político.
A Presidência continuaria com a caneta.
O Congresso, porém, teria força para barrar projetos, alterar propostas, derrubar vetos e impor derrotas ao governo.
Por isso, talvez a pergunta do segundo turno não seja apenas quem vencerá a Presidência.
Se Lula vencer, haverá uma segunda pergunta já na manhã seguinte: como governar um país cujo Congresso caminhou tão fortemente na direção oposta? A esquerda ainda pode conquistar o Palácio do Planalto.
O Congresso de 2027, porém, as urnas já decidiram




Comentários