EDITORIAL | Abre as asas sobre nós, liberdade
Às vésperas do segundo turno, O Brasileiro reafirma seu compromisso com a República, com a democracia e, acima de tudo, com a liberdade de cada cidadão
Há momentos na história de uma nação em que o silêncio parece mais confortável do que a palavra. Momentos em que as paixões políticas se sobrepõem à razão, em que adversários se enxergam como inimigos e em que a verdade corre o risco de se tornar refém das conveniências.
O Brasil chega a mais uma dessas encruzilhadas.
Neste sábado, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, milhões de brasileiros se preparam para exercer aquele que talvez seja o mais extraordinário dos direitos republicanos: escolher, livremente, quem deverá governá-los.
Não se trata apenas de uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Trata-se de mais um capítulo da longa, turbulenta e, por vezes, dolorosa construção da democracia brasileira.
Em 1889, a República nascia sob a promessa de uma nova era. E, no Hino da Proclamação da República, versos que atravessariam gerações proclamavam:
“Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!”
Mais de um século depois, essas palavras continuam a carregar uma responsabilidade que nenhuma eleição, nenhum partido e nenhum governante pode reivindicar exclusivamente para si.
Porque a liberdade não pertence à esquerda. Não pertence à direita. Não pertence aos vencedores e tampouco pode ser negada aos vencidos.
A liberdade pertence ao povo brasileiro.
Ao longo desta campanha, O Brasileiro assumiu um compromisso que, em tempos de radicalização, tornou-se particularmente difícil: preservar sua independência editorial.
Não foi uma tarefa simples.
Em um ambiente político no qual frequentemente se exige que cada palavra represente uma declaração de apoio, escolhemos um caminho diferente. Publicamos informações, examinamos discursos, questionamos candidatos e procuramos oferecer ao leitor os elementos necessários para formar seu próprio julgamento.
Houve pressões, divergências e críticas. Houve momentos em que seria mais fácil abandonar a imparcialidade e aderir ao entusiasmo de um dos lados.
Não o fizemos.
E não o fizemos porque compreendemos que o papel de um jornal não é substituir a consciência de seus leitores, mas contribuir para que ela seja exercida com liberdade.
A independência jornalística não significa ausência de convicções. Temos as nossas. Acreditamos na democracia, na liberdade de imprensa, na soberania popular, no Estado de Direito e na necessidade permanente de fiscalização daqueles que exercem o poder.
Mas essas convicções não nos autorizam a transformar a informação em propaganda.
Um jornal deve ter coragem para reconhecer os acertos de quem critica e apontar os erros de quem admira. Deve ser capaz de contrariar seus próprios leitores quando os fatos assim exigirem.
Essa é a independência que buscamos preservar.
Amanhã, quando as urnas forem abertas, cada brasileiro levará consigo suas esperanças, seus receios, suas experiências e sua própria interpretação do país.
Alguns votarão movidos pelo desejo de continuidade. Outros, pela necessidade de mudança. Haverá aqueles que votarão por convicção, por rejeição ou simplesmente por acreditarem que uma das alternativas representa um caminho menos arriscado.
Todos, indistintamente, estarão exercendo o mesmo direito.
E é precisamente nisso que reside a grandeza da democracia.
O voto de um cidadão não vale mais porque sua opinião é considerada correta. Tampouco vale menos porque suas escolhas desagradam a uma maioria.
A República não exige unanimidade. Exige respeito às regras que permitem a convivência entre os diferentes.
O resultado das urnas poderá produzir alegria em milhões de lares e profunda decepção em outros tantos. Essa é a natureza de uma eleição.
Mas, quando a apuração terminar, haverá uma verdade institucional que deverá prevalecer sobre qualquer preferência pessoal: a vontade legitimamente expressa pelo eleitorado brasileiro.
Ao vencedor caberá governar também para aqueles que não o escolheram. Ao derrotado caberá reconhecer o resultado legítimo. Às instituições caberá cumprir suas responsabilidades constitucionais.
E à imprensa caberá continuar fazendo aquilo que sempre deveria fazer: fiscalizar, investigar, questionar e informar.
O Brasileiro não será um jornal de situação nem de oposição por conveniência. Será, como procurou ser durante esta campanha, um jornal comprometido com os fatos e com o interesse público.
Nossa responsabilidade não termina com a eleição. Pelo contrário: torna-se ainda maior quando o vencedor deixa de ser candidato e passa a exercer o poder.
A história ensina que nenhuma democracia está definitivamente concluída. Ela precisa ser preservada, aperfeiçoada e defendida a cada geração.
A República brasileira atravessou crises, rupturas, períodos autoritários, redemocratizações e profundas transformações. Sobreviveu a homens que se julgavam indispensáveis e a projetos políticos que pretendiam confundir seus próprios destinos com o destino da nação.
O Brasil, entretanto, é maior do que qualquer presidente.
É maior do que qualquer partido.
É maior do que qualquer eleição.
Nesta noite que antecede a decisão, não pediremos votos para Lula nem para Flávio Bolsonaro.
Pediremos algo que consideramos infinitamente mais importante: que cada brasileiro vote segundo sua consciência, sem medo, sem constrangimento e sem entregar a terceiros o direito de pensar por si mesmo.
Amanhã, as urnas falarão.
E, seja qual for o resultado, que nenhum vencedor se considere proprietário do Brasil e que nenhum derrotado se esqueça de que a democracia também lhe pertence.
Que a divergência não destrua o respeito. Que a paixão não silencie a razão. Que o poder jamais se coloque acima da Constituição.
E que, ao amanhecer de mais um capítulo de nossa história republicana, possamos recordar os versos que, desde o nascimento da República, expressam uma das mais nobres aspirações nacionais:
“Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!”
Que essas asas protejam não um candidato, não um partido, não uma ideologia.
Que se abram sobre todos nós.
Sobre o Brasil. Sobre a República. Sobre a democracia.
O Brasileiro — 24 de outubro de 2026.




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