Crise no abastecimento: Petrobras reduz oferta, ANP entra em alerta e mercado teme falta de combustíveis
- Por Alex Souza Jr
- 19 de mar.
- 4 min de leitura
A redução na oferta de diesel e gasolina pela Petrobras acendeu um alerta no mercado de combustíveis e levou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a decretar Sobreaviso no Abastecimento de Combustíveis no Brasil.

A medida ocorre em meio ao agravamento da crise internacional de energia após o início da guerra no Oriente Médio e à escalada dos preços do petróleo no mercado global.
A Petrobras informou às distribuidoras que irá reduzir em até 20% o volume de combustíveis disponível para compra em abril, na comparação com o mesmo período do ano passado. A decisão pegou o setor de surpresa e colocou o país diante de um impasse: ampliar importações a custos muito mais elevados ou enfrentar o risco de desabastecimento pontual, especialmente de diesel, essencial para o transporte de cargas e para o agronegócio.
Mensalmente, a estatal define a chamada “cota mês”, que limita o volume que cada distribuidora pode adquirir das refinarias. O mecanismo existe porque o Brasil não é autossuficiente em combustíveis. Atualmente, cerca de 30% do diesel e 10% da gasolina consumidos no país vêm do exterior. Em abril, porém, esse teto será ainda menor, ampliando a dependência das importações em um momento de preços internacionais elevados.
No dia 19 de março, o diesel importado entregue nos portos brasileiros chegou a custar R$ 2,70 por litro acima do valor praticado pela Petrobras nas refinarias. Na gasolina, a defasagem chegou a R$ 1,50. Esse cenário tem levado distribuidoras a reduzir compras externas ou a operar com margens negativas, pressionando toda a cadeia.
Além da redução de volumes, a Petrobras promoveu uma mudança operacional que agravou a situação. A partir de março, a cota mensal passou a ser liberada em frações diárias de 1/30 do total. Como a demanda não é uniforme ao longo do mês, a medida dificultou o planejamento das empresas e elevou custos logísticos.
Enquanto o combustível produzido no Brasil é escoado por dutos, o produto importado chega por navios e depende exclusivamente de transporte rodoviário até os centros de consumo. A necessidade de manter fluxo constante de caminhões reduziu escala, aumentou gastos com frete e armazenagem e ampliou o risco de gargalos.
Acusações de desvio e pressão por reajuste
A presidente da Petrobras afirmou que importadores privados estariam desviando navios de diesel originalmente contratados para abastecer o Brasil, redirecionando as cargas para mercados mais rentáveis em meio à escassez global. Segundo a estatal, ao menos seis navios monitorados tiveram seus destinos alterados, alguns após se aproximarem de portos brasileiros.
Do outro lado, entidades do setor afirmam que os preços praticados no mercado interno estão defasados em relação ao mercado internacional, o que tornaria as importações economicamente inviáveis. Distribuidoras e importadores enviaram cartas ao governo federal pedindo reajustes e alertando para riscos ao abastecimento.
O Sindicom, que representa as principais distribuidoras do país, informou que suas associadas vêm registrando aumento relevante da demanda, ao mesmo tempo em que enfrentam cortes de cotas e negativas de pedidos adicionais para março e abril. A entidade também cobrou a retomada dos leilões de diesel e gasolina cancelados pela Petrobras nesta semana.
ANP decreta sobreaviso e amplia fiscalização
Diante da escalada de tensões, a ANP aprovou um conjunto de medidas para intensificar o monitoramento do mercado. Embora afirme que não há, até o momento, restrições concretas ao abastecimento, a agência declarou o Sobreaviso no Abastecimento, mecanismo que permite acompanhamento dinâmico e adoção de ações preventivas.
Com isso, produtores, importadores e distribuidores passaram a ser obrigados a enviar informações detalhadas e frequentes sobre estoques e movimentações de gasolina e diesel. Foram notificadas refinarias, as principais distribuidoras do país, empresas que também realizam importações em volumes relevantes e importadores independentes.
A ANP também decidiu flexibilizar excepcionalmente as regras de estoques mínimos até 30 de abril de 2026, permitindo que empresas disponibilizem combustível ao mercado sem a obrigatoriedade de manter volumes mínimos armazenados. O objetivo é aproximar os estoques da ponta de consumo e dar mais fluidez ao abastecimento.
Outra medida foi a notificação à Petrobras para que ofere imediatamente os volumes referentes aos leilões de diesel e gasolina cancelados em março, além de apresentar informações detalhadas sobre importações previstas, preços, produtos ofertados, locais de internalização e dados dos navios.
A agência ainda alertou empresas do setor sobre a possibilidade de responsabilização em caso de recusa injustificada de fornecimento ou prática abusiva de preços e informou que encaminhará uma nota técnica sobre a situação do abastecimento ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica para avaliação.
Impactos além dos combustíveis
A crise no fornecimento de petróleo e derivados levanta preocupações que vão além do setor de transportes. Derivados do petróleo são utilizados como insumos em diversas cadeias industriais, incluindo a indústria farmacêutica. A reportagem procurou a Geolab, fabricante de medicamentos como o ibuprofeno, para comentar possíveis impactos na produção, mas não obteve resposta até o fechamento do texto.
Também foram procuradas as assessorias de imprensa da Ipiranga, da Febraban e Brasilcom. Não houve retorno das três primeiras. A Raízen informou que não irá se pronunciar. A Petrobras também foi procurada, mas não respondeu.
Nos bastidores do setor, o silêncio de parte das empresas é visto como sinal de incerteza, dificuldade de planejamento e incapacidade de cobertura plena da demanda em um cenário de instabilidade internacional prolongada.
Com o consumo de diesel prestes a atingir o pico por causa da safra agrícola e com preços internacionais em alta, o mercado avalia que, se a logística falhar ou se as importações não avançarem no ritmo necessário, o Brasil pode enfrentar episódios pontuais de falta de combustível nas próximas semanas, acompanhados de novos reajustes nas bombas.



Comentários